DISCO Nº 2056 DA EMISSORA NACIONAL! UMA OBRA-PRIMA DE VILLA-LOBOS!
Este fonograma data de 1950 e pertence à Face B do disco LP de 33 R.P.M. editado pela “Valentim de Carvalho” com o selo da “Columbia”, a matriz de disco “33SX1011”, a matriz de fonograma “XLP1756”, em que a Orquestra Sinfónica da Filarmonia de Nova Iorque, dirigida por Efrem Kurtz, interpreta duas obras orquestrais, que são precisamente “Les Sylphides” de Chopin, com instrumentação de Glasunov, e esta obra-mestra que escutamos aqui, de seu nome “Uirapuru”, um Poema Sinfónico de Heitor Villa-Lobos, concebido a partir so seguinte programa:
‘Em uma floresta calma e silenciosa, aparece um índio feio, maldoso Feiticeiro, tocando uma flauta de osso. Da densa folhagem das árvores surgem jovens e belas índias que afugentam o intruso com empurrões e xingamentos. Elas procuram o Uirapuru, trovador mágico que, segundo os velhos sábios da tribo, outrora fora o Deus do Amor. Ao longe, trilos suaves anunciam a presença do pássaro cobiçado. Enfeitiçada por seu mavioso canto, a mais linda das índias, adestrada caçadora, fere-o com sua flecha. Caído ao chão, o Uirapuru transforma-se no mais belo cacique da floresta. Entretanto, o som fanhoso e agourento da flauta de osso anuncia a volta do índio feio, sedento de vingança. E apesar do protesto das jovens, o ingênuo guerreiro, demonstrando toda sua coragem, enfrenta o Feiticeiro. O cacique é ferido mortalmente e as índias, com ternura e tristeza, transportam seu corpo para uma fonte. Subitamente o jovem volta a ser pássaro e, voando, desaparece cantando por sobre as árvores. Desde então, no cenário da floresta, reino encantado de muitos sons, de grilos, mochos, corujas, bacuraus, sapos e outros animais cantadores, tudo silencia quando o Uirapuru canta sua longa e bela melodia.’
Com o subtítulo de “O Passarinho Encantado”, e o título original de “O Tédio da Alvorada”, este magistral poema sinfónico do controverso Villa Lobos é o resultado da sua aventura antropológica pelas zonas do Amazonas, e um dos marcos mais importantes da música sinfônica brasileira.
“Uirapuru” é um nome derivado da língua tupi, aplicado a vários membros da família das aves Pipridae encontradas no Brasil. O pássaro cujo canto Villa-Lobos utilizou como tema composicional é o uirapuru-verdadeiro ou carriça do músico, também conhecida como “cambaxirra” ou “quadrilha”, ave com uma variedade surpreendente de padrões de canto.
No contexto da produção de Villa-Lobos, juntamente com “Amazonas”, este “Uirapuru” antecipa algumas constantes de sua linguagem madura, como a acentuada polirritmia, e aspectos atonais ou politonais no estilo de Frederico de Freitas.
Tal como Frederico de Freitas em Portugal, Villa-Lobos reunira muito material folclórico quando, na década de 1910, viajou pelas capitais litorâneas até ao Recife, e depois, de Fortaleza a Manaus, empreendeu uma aventura única, marcada por peripécias incríveis, à procura das vozes da natureza e dos habitantes da região.
Foi uma aprendizagem que o deixou cheio de orgulho e felicidade, afirmando que o seu principal livro de harmonia fora precisamente o mapa do Brasil, e graças a isso, surgiu esta obra-prima, um dos primeiros sucessos de Villa-Lobos na utilização de material folclórico, à boa maneira de Glinka e Dargomizhsky, sem esconder as fortes influências dos modelos europeus de Liszt, Puccini, Debussy, d’Indy e Wagner.
Concebida para Flautim, 2 flautas, 2 oboés, um corne inglês, 2 clarinetes, um clarone, 2 fagotes, um contrafagote, um saxofone soprano, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tuba, tímpanos, percussão, duas harpas, piano, 1ºs violinos, 2ºs violinos, violetas de arco, violoncelos e contrabaixos, inclui o violinofone, um violino que está acoplado a uma trompa, uma invenção original do compositor, e percussão bem brasileira, com reco-reco, coco, surdo e tamborim, e segundo especialistas, logo no início, ouve-se, com outra orquestração, o famoso acorde de Tristão e Isolda.
Esta é a notável interpretação da Filarmónica de Nova Iorque, dirigida por Efrem Kurtz, difundida com imensa regularidade na Emissora Nacional, onde este disco foi catalogado com o nº 2056, e de tão difundido que foi, nota-se em certa parte o atrapalho do gira-discos, derivado da sua utilização, mas que em nada, felizmente, compromete esta interpretação única desta obra-prima de Villa-Lobos.
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